quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Saudade é pra quem tem

Não quero viver presa ao passado, tampouco ás vestes do verão e às paixões de outono; não quero ter de manter-me sempre impecável num só coração, nem de continuar a lembrar daquela história que um dia foi minha favorita. Quero caminhar sobre as sombras, com os pés sob o sol que bate na areia; quero me encontrar numa rua nova, com outras labaredas e outras esquinas, com velhinhos recém-nascidos sentados em suas cadeiras de balanço a tecer o fim da vida; quero estar apaixonada por perfumes num dia, em olhares num outro; sentir saudades dos que foram, me encontrar com os que permanecem e saudar os que virão. Quero correr rasgando o vento, e rir para costurá-lo de volta; quero que o tempo passe e eu o veja, para poder cumprimenta-lo e perguntar como foi seu dia; quero respirar outros ares, ver outros rostos, sentir novos cheiros, arrepiar outras peles e até encontrar novos corações. Quero originar as palavras de certo alguém, ouvir a música do amor tocar na rádio, observar a árvore da vida a dar novos frutos… Quero viver sem grades, sem algemas, com as asas prontas para voar sob o céu azul duma tarde de domingo.



Um eu

Eu, sob edredons,
Sob chãos,
Sob pedras,
Sob perdas,
Sob um coração. Um coração sob dores,
Sob mentiras,
Sob destroços,
Sob cartas,
Sob caras,
Até sob viagra. Viagra sobre sexo,
Sobre você,
Sobre você e ela,
Sobre vocês,
Não sobre você e eu, não sobre eu.
O edredom sob chão sob pedras sob perdas de um coração. Um coração que dói, que mente, que destrói. Um coração sem você. 

Eles querem

De alma aberta: triunfa o medo por si só
E todos exploram, e todos devoram
Os olhos do azul mais oceano
O mais oceano atlântico
— Não tudo, não tudo.

De corpo rasgado: só
Sangue arrebentado e coração pulsando
Ainda pulsa! Ainda pulsa!
Corre, corre, corre, corre
Garotinha do pé sujo, de mãos e boca curiosas
— Cai não, cai não! Menina, só tem lixo no chão!

De espírito livre: a liberdade tão só
E todos comem, e todos arrancam
Do peito o sol que nasce toda manhã
Sem fé
Sem uma seca lágrima molhada pra cair
Pra molhar planta pra molhar alma
Pra não usar, pra não abusar
Da alma aberta, ou do corpo rasgado
— Deixa escorrer... Deixa livre. 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Desenterrando

Luke Müllar não tinha certeza de onde estava. As luzes em vermelho e verde dançavam no teto de fronte ele, mas o chão lhe parecia miseravelmente com o carpete enrugado e fajuto dos irmãos Godói. Ele sentia o pêlo felpudo pinicando-lhe as nádegas nuas, o cheiro de vinho ou qualquer outra bebida com odor tão impregnante subia com o ar. Estava frio. Ele girou o corpo e pôde encontrar o resto das mobílias de sua própria casa. Luke Müllar não soube distinguir o que era móvel e o que era lixo naquele espaço minúsculo, recheado de coisas que ele não tinha idéia de como fora aparecer lá. Os olhos estavam um pouco tontos, a cabeça de alga girava em torno de redemoinhos imaginários. Ele riu de alguma coisa estúpida que veio em sua mente, algo como um cérebro feito por algas e água ao invés de sangue. Ele até cogitou a idéia daquele desenho animado, Bob Esponja, viver em sua cabeça e caçar águas-vivas. Oh, yeah, estava louco.