Não quero viver presa ao passado, tampouco ás vestes do verão e às paixões de outono; não quero ter de manter-me sempre impecável num só coração, nem de continuar a lembrar daquela história que um dia foi minha favorita. Quero caminhar sobre as sombras, com os pés sob o sol que bate na areia; quero me encontrar numa rua nova, com outras labaredas e outras esquinas, com velhinhos recém-nascidos sentados em suas cadeiras de balanço a tecer o fim da vida; quero estar apaixonada por perfumes num dia, em olhares num outro; sentir saudades dos que foram, me encontrar com os que permanecem e saudar os que virão. Quero correr rasgando o vento, e rir para costurá-lo de volta; quero que o tempo passe e eu o veja, para poder cumprimenta-lo e perguntar como foi seu dia; quero respirar outros ares, ver outros rostos, sentir novos cheiros, arrepiar outras peles e até encontrar novos corações. Quero originar as palavras de certo alguém, ouvir a música do amor tocar na rádio, observar a árvore da vida a dar novos frutos… Quero viver sem grades, sem algemas, com as asas prontas para voar sob o céu azul duma tarde de domingo.
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